Mar de Mayã
O constante avançar do mar sobre a cidade, no balneário de Atafona, distrito de São João da Barra, no norte do estado do Rio de Janeiro, serve de inspiração e pano de fundo para a história de Janu, um pescador local, e sua mulher, Mayã, que morre no mar.
Pandemias, tsunamis, furacões, aquecimento global, aumento do nível do mar: são muitas as consequências da crise ambiental que enfrentamos — e que provocamos. O mar, que vem “tomar de volta o que é seu”, na linguagem dos habitantes do lugar, apresenta-se como uma metáfora cortante sobre a relação do ser humano com o mundo. Sobre a opção pela não escuta e pela percepção seletiva. Sobre o diálogo. Sobre as relações. Sobre a vida.
Inspirado em uma tragédia ambiental real, o espetáculo convida à reflexão sobre a relação insalubre do homem com o planeta e sobre quantas tragédias esse desequilíbrio é capaz de gerar — e, principalmente, a quantas delas sobreviveremos se continuarmos a ser quem somos.
Após temporada de estreia e participações em festivais, tendo recebido o Prêmio Paschoalino de Melhor Espetáculo no Festival da FETAERJ (2020) e os Prêmios de Melhor Texto e Melhor Trilha Sonora no Festival de Teatro de Petrópolis (2021), Mar de Mayã propõe agora uma circulação. Um espetáculo de alerta sobre as consequências, as perdas e as necessidades de adaptação — em diversos aspectos da nossa existência — que precisaremos enfrentar.


“Teus olhos inundando os meus e a minha vida, já sem leito, vai galgando margens até tudo ser mar. Esse mar que só há depois do mar.”
Mia Couto
Justificativa
Uma relação desarmônica. A civilização ocupando espaços, afetando e deixando-se afetar pelo ambiente. Construções — materiais e simbólicas — erguidas sobre um chão inapropriado. A sobrevivência curvando-se aos mistérios do mundo. O amor sucumbindo às tragédias.
A necessidade de abastecimento da metrópole fluminense interfere no desvio de cerca de 70% do volume de água do Rio Paraíba do Sul. Seu leito deságua no balneário de Atafona, em Campos dos Goytacazes. Com o corpo vazante ferozmente reduzido, o rio perde sua força e passa a ceder o território de sua foz às águas salgadas do oceano. O mangue, sua vegetação e sua fauna sofrem interferências constantes que ameaçam sua sobrevivência. O vilarejo de pescadores, construído irregularmente sobre um terreno aterrado, vai desaparecendo. Onde antes se estendiam ruas, casas, praças, igrejas, escolas, posto de gasolina e ilha, hoje espalham-se ondas, espumas, água e sal.
A degradação ambiental é um dos aspectos mais alarmantes do desenvolvimento humano. A constituição das relações, orientadas pelo atendimento imediato de necessidades crescentes, tem levado a humanidade à beira de um colapso — não apenas natural, mas estrutural, social, econômico e afetivo. Nada muito distante do que enfrentamos atualmente, com o agravamento da crise ambiental, que impacta nossas vidas de forma radical em todos os aspectos.
Essa confusão resulta em adoecimento, baixa qualidade de vida, penalização das minorias menos assistidas, degradação ecológica, exploração exacerbada da violência e acentuação de conflitos já existentes na sociedade, como a violência física, psicológica e sexual no ambiente doméstico, além do feminicídio. Questões também enfrentadas pelos personagens da trama, que vivem sob a tensão constante do avanço do mar sobre suas vidas.
Mar de Mayã nos conduz, por meio da história da destruição de um projeto familiar, a uma reflexão sobre o próprio projeto social humano. As escolhas que nos segmentam, as consequências das prioridades eleitas, os paradigmas ultrapassados. Janu, homem da terra e a ela profundamente ligado, não consegue abrir mão do modo de ser-no-mundo que lhe foi ensinado. Mayã, mulher-mãe, corpo que gera a vida, insurge das águas como mensageira do fim — ou da transformação inevitável.
Estabelece-se um embate entre vida e morte, constância e movimento, tradição e ruptura, masculino e feminino, matéria e intangível, indivíduo e coletivo, homem e mundo. Quando, para sobreviver, é necessário transformar, a arte torna-se uma ferramenta indispensável: despertando os sentidos e a sensibilidade para iluminar a razão; investindo na capacidade de diálogo, na construção coletiva do pensamento e na leitura do mundo como uma integralidade; incentivando o exercício da criatividade, da inteligência e da ação.


Objetivos
• Realizar a circulação do espetáculo Mar de Mayã, escrito por Paulo Marcos de Carvalho, sob direção de Josué Soares.
• Promover debates após as apresentações com associações, comunidades, estudantes e público em geral, a partir dos temas abordados pelo espetáculo.
• Incentivar a reflexão sobre a relação do ser humano com o planeta, compreendendo como seu comportamento afeta e é afetado pelo ecossistema, especialmente no contexto de agravamento da crise ambiental.
• Discutir a criação de necessidades da sociedade moderna e as alternativas para seu abastecimento.
• Retratar o ser humano como elemento indissociável de suas relações, compreendendo o universo como um sistema único e não passível de segmentação, no qual cada ação individual gera impactos em outros agentes do sistema.
• Encenar o conflito entre os gêneros como forma de dissecar a violência resultante da não aceitação das diferenças, da diversidade de pensamento e das liberdades individuais.
• Levar ao palco o diálogo entre arquétipos que formam o imaginário brasileiro, como a mitologia africana, a cultura popular e a relação do homem com a terra.


”A rainha do mar anda de mãos dadas comigo, me ensina o baile das ondas e canta, canta, canta pra mim”
- Paulo Cesar Pinheiro
Ficha Técnica
Texto: Paulo Marcos de Carvalho
Direção Geral, Corpo e Movimento: Josué Soares
Elenco: Thiago Vianna e Taís Alves
Preparação Corporal: Sarah Christina Carvalho
Trilha Original (Composição): Raphael Teixeira
Músicos: Raphael Teixeira e Flávio Lázaro
Figurino e Visagismo: André Vital
Iluminação: Pablo Rodrigues
Identidade Visual: Ploc Marketing Visual
Direção de Produção: Taís Alves
Realização: TABA


